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Crónicas . Da Balbúrdia Article

Intermitências

On Setembro 11, 2026porJoão Azevedo

Olá, espero que te encontres bem.

O cursor apoderou-se da página, intermitente e hesitante. Eu sabia que queria escrever um texto sobre o regresso das férias e da pausa anual que faço destas crónicas, mas fui tomado por um vazio. Sentia que não tinha nada para vos dizer. Nestes momentos, o cursor usurpa o espaço que está destinado a aglomerados de letras e exibe a sua intermitência, implacável. Calhou bem, então, a leitura do mês de Setembro do Marginália. Não tenho seguido as últimas leituras, tem-me faltado o espaço mental para levar avante uma leitura crítica e analítica, de lapiseira em riste, pronta a sublinhar e rabiscar pensamentos nas páginas do livro. Este mês estamos a ler Quando me perguntam porque escrevo da Lydia Davis. Logo no arranque, a autora cita John Barth que escreve que “Não se deve dar muita atenção ao que os escritores dizem. Eles não sabem porque fazem o que fazem.” p.10. Percebo-a, claro. A Balbúrdia vai desempenhando papéis diferentes ao longo da sua existência e muda com as marés da minha vida, não fosse este canto, também, um reflexo de quem sou a dado momento. Demasiadas vezes não sei porque escrevo, nem como escrevo. Escrevo, simplesmente. Para perceber melhor o que penso e ver espelhados pensamentos e raciocínios e partilhar a minha interioridade, essa necessidade tão humana, e sentir-me acolhido por quem me lê. A escrita completa-se quando encontra quem a leia. Davis escreve algo parecido e vê-se a braços com a tarefa hercúlea de perceber porque escreve. Ao saborear as palavras da autora, percebi que a minha resposta será sempre diferente à medida que envelheço e vivo momentos distintos que salpicam a pessoa que sou. Também aqui escrevi para perceber o mundo à minha volta, para processar sentimentos e emoções avassaladoras.

Mas depois refere um incómodo. O incómodo. Percebi logo de que se falava, de quando algo com que nos deparamos nos arranca do torpor da repetição dos dias. Davis desdobra-se numa explicação onde explica que esse incómodo pode também ser algo positivo, como uma paisagem bucólica e agradável ao olhar. A semântica tem destas coisas e alimenta a minha picuinhice com as palavras: incómodo tem uma conotação negativa, custa-me associar a palavra a paisagens ou a qualquer tipo de poesia palpável que nos deslumbra no dia-a-dia. Far-me-á mais sentido chamar-lhe inquietação; o José Mário Branco cristalizou um putativo significado na sua conhecida música e parece-me ser o termo mais adequado para essa “coisa que eu devia perceber”.

“A razão pela qual escrevo uma determinada história pode ser porque algo – a que chamo «material», no sentido de «matéria-prima» – me incomoda até eu «fazer algo» a esse respeito.”

Lydia Davis – Quando me perguntam porque escrevo, p. 13

Imagem retirada do site da Zigurate.

Senti-me acolhido e parte de algo maior, ao ler esta frase. Posso discorrer sobre as múltiplas raízes da minha escrita; mas é mais do que a simples necessidade de partilhar ou ser lido e validado. É um ímpeto, visceral, de fazer algo em relação a essa matéria-prima que me impele a escrever sobre ela. Fico inquieto se me deixo vencer pelo imobilismo, parece fico em falta para com alguma entidade literária superior – claramente imaginária – e sinto-me aquém. O pensamento não parece completo, nem sólido, na ausência da escrita que clarifica as inquietações, esse material primordial que pareço só compreender, verdadeiramente, quando o coloco por palavras.

Quando termino essa regurgitação semântica e gramatical, porém, muitas vezes não me reconheço nas palavras. Parecem-me estrangeiras à pessoa que sou e desconfio de que possa ter sido eu a escrevê-las. “Quando o leio, penso que foi escrito por outra pessoa. É uma sensação de êxtase que nada mais pode proporcionar. Talvez seja por isso que escrevemos.” p.15. É, talvez seja essa uma das razões. Sorri ao ler esta frase, cúmplice de também obter prazer de ler esse desconhecido que habita em mim. Sou surpreendido não só pela forma – já escrevi frases que aprecio sobremaneira – mas também pelo conteúdo. Esqueço-me do que escrevo facilmente: imaginam, então, o espanto que se pode ter ao reler coisas que não recordamos que tínhamos pensado.

Davis conta-nos que “John Ashbery foi convidado para proferir as seis palestras Charles Eliot Norton em Harvard (… ) e pensou que estavam a pedir-lhe que explicasse a sua própria poesia (…) Em vez disso, dedicou as seis palestras a seis poetas…”. Portanto, ao invés de escrever e falar sobre a sua escrita, recorre a outros autores que, de alguma forma, influenciaram ou impulsionaram a sua escrita. Acho interessante esta fuga de rabo à seringa para falarmos de nós próprios e do nosso ofício. Talvez porque nunca sabemos, verdadeiramente, o porquê de escrevermos o que escrevemos. Quiçá seja essa a razão pela qual sentimos que não nos reconhecemos no que escrevemos. A escrita acontece num vórtex inexplicável, esvaziada de propósito e limita-se a escorrer pelas mãos de quem se permite ser um veículo? O que levou este texto, que arranca com a incógnita de uma página vazia, sem ideia definida, a tornar-se no que é neste preciso momento? Escondo, portanto, a minha vacuidade de ideias atrás de pensamentos de outros ou construo um ideário à medida que alicerço a minha escrita em ombros alheios?

Photo by Resource Database on Unsplash

Não sendo surpreendente, poder-se-á concluir que a leitura é, então, uma levedura altamente contagiosa. Contamina-nos com ideias novas e, sem rodeios, com outras formas de pensar o que nos rodeia. E, quando escrevemos, colocamos essas ideias e cosmovisões em páginas atrás de páginas que, esperamos nós, contaminem outras pessoas. Por isso, a literatura poderá ser epidémica. Claro que podemos esmiuçar e debater o que é literatura, mas são outros quinhentos. Parafraseando, e sem a certeza se terá sido Hemingway, ou o jornalista desportivo Red Smith, o autor, escrever é fácil, basta abrir as veias e sangrar na máquina de escrever. Já tive o prazer e privilégio de ler escrita assim, sangrada, visceral. Também já tive momentos em que, à medida que escrevia, sangrava no papel ou no ecrã partes inteiras da imensidão que sou. Há, mesmo, essa componente física quando lemos e escrevemos. Por tudo isto, desconfio, pode dar-se um certo pudor em assumirmo-nos como escritores. Uma vergonha alheia imbuída de síndrome do impostor. Imaginamos esse “ideal de escrita – livros que eram necessários para os seus autores, que não se importavam se os livros eram necessários para mais alguém.” Mas, na prática e em boa verdade, “dada a nossa natureza comunicativa, a nossa necessidade natural de companhia, não seja possível, ao escrevermos, não nos importarmos com quem irá valorizar o que escrevemos.” p.46.

O cursor perdeu a sua intermitência há uns quantos parágrafos. Dessa ausência de tema, de inspiração, sobrou-me o reduto que são os livros que leio e me moldam. Fui, já se percebeu, beber ao que estou a ler para refletir sobre porque escrevo e não chego a nenhuma conclusão. Ou melhor, chego a várias: escrevo porque me inquieto sobre coisas que depois preciso de partilhar. Para além de me ajudar a perceber melhor o meu próprio pensamento, gosto de ser lido e visto e validado porque, como quem me lê, sou humano.

Abraço-vos,

João

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Tags: 2026, Crónicas, Escrita, inquietação, Leitura, literatura, Processo Criativo

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