Já aqui escrevi, mais de uma vez, sobre a estrelinha que sinto que me acompanha há anos. Não há nada aqui de esotérico nesta afirmação: é a forma que encontrei para descrever a sorte e o privilégio com que cresci e que influenciaram muito do caminho que a minha vida tomou.
Cresci num dos melhores bairros para se viver em Lisboa. As famílias que lá viviam pertenciam maioritariamente a uma classe média e alta cujas mundividências partiam de experiências de vida cheias de privilégios. Conheci e fiz amizades com pessoas interessantíssimas, que me estimularam intelectual e socialmente e abriram portas que, crescendo noutro lado qualquer, me seriam impossíveis de abrir. Calhou-me, na lotaria genética e social, uma família que, apesar das suas falhas, me garantiu um desenvolvimento saudável e capaz de enfrentar o mundo. Uma boa educação, rica em vocabulário e estímulo cultural.

Nem sempre aproveitei o privilégio de que dispus. Tive um percurso errático, feito de más escolhas e decisões, que foi sofrendo correções estratégicas – a tal estrelinha. Maus caminhos e pessoas menos boas que, quis o destino, foram desaparecendo com o tempo. Apareceu sempre um bom amigo ou familiar a chamar-me à razão e a obrigar-me a olhar ao espelho. Nesse reflexo, fui pondo a mão na consciência e ajustando a rota dos trilhos que caminhava. As oportunidades, principalmente aquelas que moldaram o percurso da minha vida, caíram-me no colo – muito graças ao privilégio de ter uma família e rede de amizades que me mostraram sempre outros horizontes e possíveis caminhos. Percebi que queria ir para o ensino superior depois de trabalhar como marceneiro no Verão a seguir a ter chumbado dois anos seguidos no secundário. Uma cortesia pedagógica da minha mãe para me mostrar o caminho de quem escolhe não avançar com os seus estudos. E seria, de facto, uma escolha: o privilégio de poder avançar nesse caminho já estava garantido pela condição social da casa onde cresci. Tive a certeza de não queria uma carreira corporativa depois de ter estagiado numa empresa de construção civil como informático. Foram três meses onde pouco aprendi do mister e aprendi muito com a sociologia da vida empresarial. E usei o muito tempo livre para estudar para os exames nacionais e tentar colmatar as debilidades do ensino profissional. Depois de andar perdido, foi a Sofia que, com muitas conversas, me abriu os horizontes do ensino superior e pôs em cima da mesa ir estudar Cinema. Foi com ela que comecei a ver bons filmes e a desenvolver uma cinefilia mais aguerrida, com substância. Lá está, sorte, em tê-la conhecido na altura certa. As boas pessoas que encontramos na vida são uma raridade, um tesouro que deve ser estimado. Quando acabei o curso, deparei-me com um mercado onde a precariedade reinava, demasiadas incertezas em plena recessão económica. Fiz demasiados estágios não remunerados, demasiadas borlas. Até que, uma dessas borlas, me pôs em contacto com a pessoa responsável pelo sítio onde trabalho hoje em dia. Já lá vão 16 anos.
A sorte protege os audazes.
Permitam-me discordar desta frase. A mim as coisas foram-me acontecendo e caindo no colo, muito fruto do privilégio e do acaso. Foram-me dando a mão quando precisei – e quantos não a tiveram? Tive o apoio e as bases formativas que me ajudaram a ser quem sou – e quantos não o tiveram? A sorte bafeja em intensidades diferentes as pessoas. Há muitas nuances nesses sopros e é um fôlego que nunca chega para todos. Talvez por ter sido sempre agraciado pela estrela da sorte, pelo privilégio de ter tido a família e amigos que fui tendo ao longo da vida, fui muito resguardado das agruras da vida. E, cheira-me, que a minha aversão à mudança e ao risco também está relacionada com o conforto que fui tendo ao longo da vida. As coisas foram-me acontecendo – é certo que consequência de mérito e de rede de contactos – mas nunca arrisquei grande coisa. Gosto da rotina, de saber o que me espera; sofro com ansiedade desde que me lembro e não há nada melhor que a falsa sensação de controlo que a repetição dos dias me dá.
A estrelinha, nos últimos tempos, tem brilhado de forma diferente. Abriu-me outras portas que implicam mudança, risco e espírito de aventura. Molhar os pés em águas que não conheço. Fez-me cair no colo uma porta que hesitei em abrir. Há um certo medo, do desconhecido. No chat do Marginália, a Marta Nunes escreveu que “há sempre medo antes do salto”. Talvez. O ano vai longo e estranho e cheio de perdas que têm lascado a minha saúde mental. Mesmo assim, preparo-me para saltar, do alto do privilégio de quem ainda o pode fazer.
Abraço-vos,
João
Estas crónicas serão sempre gratuitas. Se gostas de acompanhar o que escrevo e gostavas de me apoiar, podes:
- Mandar-me uns trocos para o PayPal
- Ajudar-me a vender livros e coisas cá de casa
- Fazer uma contribuição única ou recorrente para um café
Arquivo
- Julho 2026
- Junho 2026
- Maio 2026
- Abril 2026
- Março 2026
- Fevereiro 2026
- Janeiro 2026
- Dezembro 2025
- Novembro 2025
- Outubro 2025
- Setembro 2025
- Agosto 2025
- Julho 2025
- Junho 2025
- Maio 2025
- Abril 2025
- Março 2025
- Fevereiro 2025
- Janeiro 2025
- Dezembro 2024
- Novembro 2024
- Outubro 2024
- Setembro 2024
- Agosto 2024
- Julho 2024
- Junho 2024
- Maio 2024
- Abril 2024
- Março 2024
- Fevereiro 2024
- Janeiro 2024
- Dezembro 2023
- Novembro 2023

Deixe um comentário