Sentou-se num banco ao pé de um jardim. Era o começo do dia, as pessoas ainda procuravam chegar aos seus destinos, havia a promessa de um novo ciclo, cheio de possibilidades. Apesar das parecenças, não era o mesmo mundo do tempo dos seus pais. As rotinas tinham semelhanças, é certo, mas havia algo de estruturalmente diferente. Há duas ou três gerações, o mundo continha, em si, as mesmas promessas. Os pais sonhavam coisas melhores para os filhos que as recebiam de braços abertos. Era, dir-se-ia, a progressão natural: a vida melhorava, de forma contínua e exponencial. Vidas que tendiam para o infinito. Entretanto, algo mudou. Restam as memórias, cada vez mais distantes, desses tempos. Há uma finitude em tudo, recordou-nos a realidade
Os jardins, nesta altura de um dia de semana, ensinam-nos muito sobre o mundo em que vivemos. De um banco, com boa visibilidade, podem ser observadas vidas diferentes, entretecidas nesta ilusão de vida conjunta e, ao mesmo tempo, tão isolada. Tinha um jornal aberto, espraiado sobre o colo e, por trás de óculos de sol, tentava ver as pessoas. Não olhava, não. Era mesmo ver, com olhos de ver, como quem acentua a diferença entre ouvir e escutar. Ou estar e ser. Coisa rara, portanto. As pessoas, outrora, caminhavam dentro das suas cabeças, perdidas nos seus problemas e questões. Distraídas com a sua estranha forma de vida. Hoje, dão passos desprovidos de atenção e intenção, com uma curvatura acentuada da espinha dorsal na zona da nuca, a fitar um ecrã com suficientes polegadas para a alienação total. Dobrou o jornal, meticulosamente, e tirou do bolso interior do casaco uma onça de tabaco. Pôs-se a enrolar um cigarro, fino e arejado. Acendeu-o, inalou a fumaça e segurou-a nos pulmões. Instalou-se uma calma bem conhecida pelos viciados em tabaco. O olhar, esse, ficou mais acutilante. Entre o fumo que lhe saía pelo nariz ao expirar e o que ardia na ponta do cigarro, ficam as dúvidas. Teremos regressado a uma servidão que existe escondida atrás das ilusões comunicadas pelos nossos ecrãs? O lixo televisivo deu lugar ao scroll infinito de vídeos curtos, sem substância e passamos a habitar uma passividade da qual nem temos noção?
A vida escorre por entre os dedos, como uma ampulheta. Caiem pequenos grãos que compõem a nossa existência e, distraídos, seguimos em frente. Vamos andando na graça do senhor, ouve-se algures no jardim. Que senhor? Deixou-se ficar na dúvida. No jardim, as crianças brincam agarradas ao presente que estrutura a realidade que conhecem. Os adultos, esses, já conhecem o passado e, preocupados com o futuro, fogem. Do banco, dá para ver um cartaz enorme, assente em estrutura metálica, imponente, de um partido qualquer. Tem um chavão lá escarrapachado, uma cara conhecida e mediática. Apagou o cigarro na parte debaixo do banco e atirou-o, com estilo, para o caixote do lixo mesmo ao lado. Ficou-lhe o amargo de quem chegou ao filtro; era fumo e combustão, mas não era tabaco. Era outra coisa, química, falsa, sabia mal. Como o cartaz. Não era bem política, era outra forma de desviar a atenção do que realmente importa. Um lembrete de que nos faltam ferramentas para questionar. Porque nos são roubadas, ou escondidas. No que nos tornamos quando deixamos de questionar e aceitamos, cegamente, respostas a requisições alheias? Abriu novamente o jornal, não para o ler, mas para poder fitar as pessoas com maior à vontade.

Os pescoços continuavam dobrados, pareciam vidrados no chão. Iam expropriando a atenção, quinze segundos de cada vez. Depois, dedo em riste, a deslizar para cima do ecrã. Outros quinze segundos. É assim que nos vamos perdendo, quinze segundos de cada vez. Foi nesse vortex temporal que se afundaram as promessas de outrora. Os sonhos, soterrados pelas rotinas, pela falta de noção e consciência. Sentiu que alguém o observava de volta. Quem? Folheou o jornal, dobrou-o de forma a só segurar uma página, e voltou a dobrá-lo para ficar com o topo da página ao alcance dos olhos. Dois homens, de fato escuro, óculos de sol, avançaram sobre ele. Focou-se nas palavras que estavam na página. Lei, proteger, democracia, perigo, pensante, meliantes, dissidentes. Pareceu-lhe estar a ler algo parecido com “o enorme perigo da opinião” quando uma mão lhe baixou o jornal e outra pousou no seu ombro. O nosso corpo traz consigo um conhecimento milenar. A batida cardíaca acelerou, a boca ficou seca, as mãos suadas. Havia um perigo no ar, o mesmo que há segundos, estava escrito na página. Nestas alturas nunca percebemos bem o que nos acontece. Tiraram-lhe os óculos, pediram-lhe documentos, confiscaram-lhe o jornal. Na sacola, encontraram-lhe livros, essa raridade dos dias de hoje. Eram velhos, mas estavam insidiosamente repletos de liberdade. Faltava-lhe o visto de leitura em papel: a palavra escrita e impressa era, então, um luxo reservado às elites. Num piscar de olhos, estava algemado e caminhava com cada um dos senhores agentes a seu lado. Ninguém olhou: absortos no ecrã, com a atenção sequestrada, não puderam ser testemunhas de nada. Foram cúmplices do que acabara de acontecer e, muito provavelmente, morrerão sem o saber. O pior dos males é aquele que acontece longe da vista e da consciência dos comuns mortais.
O banco do jardim está vazio. Duas crianças correm à sua frente, os pais estão mais atrás, de cabeça baixa, olham para os seus ecrã de bolso. Continuam a sonhar com coisas melhores para os seus filhos. Talvez seja esse o problema: vivemos aprisionados no sonho e tornamo-nos incapazes de os transpor para a realidade. Para isso era preciso tempo e atenção, que se tem esvaído quinze segundos de cada vez e perdemos os mapas de outros caminhos nos livros que fomos deixando de ler. Fazem-nos falta as perguntas.
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