Nessa manhã, acordou a chorar. Há desesperanças cujo peso é suportado em lágrimas. Carpimos, sós, porque a dor teima em ser egoísta, porque nos dói só a nós e a dor dos outros habita-lhes no peito e salvaguarda as devidas distâncias. Ainda tinha os lençóis colados na pele enquanto soluçava: a impotência humana perante a força avassaladora dos destinos desanima qualquer um. A custo, levantou-se. O dia prometia começar, ouviam-se aviões distantes que poluíam os sentidos, o mundo, fora do quarto, almejava repetir-se na sua infinitude.
De cara húmida, levantou-se. É preciso coragem para enfrentar as ausências. O corpo encaminhou-se para a repetição de rotinas, carregado com as memórias que nos compõem. E, numa terrível ironia, constatamos que cada recordação preenche partes de quem somos e, ao mesmo tempo, nos arranca saudades impossíveis.
A manhã inundou o dia com a sua inevitabilidade. Ele fitou o mundo pela janela. Havia um vazio nesse olhar que preenchia a cozinha. A fome deixa de ter espaço em estômagos apertados.
Escrevi estes parágrafos há uns dias. Precisava de os escrever. Contêm, em si, uma história; está ali, à espreita, à espera de ser materializada. São parágrafos que têm a abstração necessária para serem mostrados ao mundo e, simultaneamente, a concretude possível. Sou eu a “fazer algo a esse respeito”. Terminei o livro da Lydia Davis há um par de dias e ainda não sei bem o que acho. O ensaio sobre o seu processo de escrita acabou por se tornar numa espécie de diário de escrita onde, sem surpresa, a leitura assume um papel vital. Poder-se-á escrever sem ler, mas assumo já a desconfiança dessa escrita com fundações bambas.
“A minha amiga também tem razão quando diz que um pensamento rápido como um relâmpago requer tempo e cuidado para ser anotado, sem omitir nada. Mas o tempo também desaparece quando nos concentramos e escrevemos rapidamente. Passa depressa e sem dor.” – Lydia Davis, Quando me perguntam porque escrevo, p.88
O personagem acordou a chorar e eu precisei de escrever, de alguma forma, a dor que ele estava a sentir. Sou empático, não consigo deixar de condoer com as aflições dos outros. E preciso deitar cá para fora. Refiro-me a uma necessidade que, embora não sendo primária como a fome, a sede ou o sono, assume uma importância sobremaneira na minha vida. É uma comichão que precisa ser coçada, imperativa, essencial. E frágil: “se alguém abre a porta do meu escritório, isso pode ser fatal para as palavras que estavam a ser ditadas por alguma parte misteriosa do meu cérebro e que podem dispersar-se irremediavelmente” p. 87 e 88. Esta fragilidade assemelha-se à aflição que se sente perante um espirro que teima, ou hesita em sair. O pensamento, ou sensação, apodera-se do ciclo mental, espalha-se rapidamente pelo corpo, há um desconforto físico e uma urgência em escrevê-lo. Na maior parte das vezes nem se percebe bem o que é antes de o escrever. Quando as palavras surgem no ecrã ou no papel, dá-se um alívio. Com sorte, uma compreensão do que se pensou ou sentiu.

Escrevi, portanto, porque fui acometido por uma necessidade difícil de descrever e caracterizar. Impeliu-me, sem pudores, a escrever sobre a desesperança, a saudade e o terrível aperto no peito a que condição humana nos condena. Não preciso ser específico; talvez se o tivesse sido, não me sentiria confortável em partilhar com o mundo. Ou perderia a poesia que dança nas frases que almejam descrever algo que eu sinto e não compreendo bem. A escrita escancara esses arquétipos da existência, lugares-comuns e estereótipos; permite experiência partilhada. Quiçá, cada um dos parágrafos iniciais tenham uma ressonância diferente nos diferentes leitores, dispostos a ser tocados por uma escrita salpicada pelos eventos da minha vida e, depois, das coisas que ando a ler. Pois “ler um livro é um compromisso considerável, não só de tempo, mas também de pensamento e até de emoção, especialmente quando temos tantos livros que trazemos para casa.” (p. 62 e 63) Então como podemos nós não ser profundamente mudados por eles? Diz-nos Davis: “Se ler Baldwin constantemente, um pouco todos os dias, enquanto escrevo este ensaio, alternando entre a leitura do seu romance e o regresso à escrita, será que vou adquirir alguma da sua fluidez, da sua habilidade em criar transições perfeitas? Serei influenciada pelas suas distinções finas e nuances subtis? Vou ler Baldwin, depois ler um parágrafo meu e melhorá-lo?” p.60
Não estava a ler Baldwin quando escrevi estes parágrafos; mas seguramente que algo do que dele li há uns anos ficou entranhado na forma como escrevo. Bem como todas as autoras e autores que fui lendo ao longo da vida. Somos, também, feitos do que lemos e de quem lemos. As frases do texto que escrevi discorrem sobre alguém que, parece-me, está distante. Uma distância inerente à falta de detalhe. A ambiguidade alberga as inseguranças dos escritores, bem como o terror de verem a sua escrita ser lida. Há, também, um medo que vai sendo destilado por quem escreve: ver as suas mágoas espelhadas, expostas num corpo de texto que, depois, os fita. É insustentável vivermos pendurados nesses escritos. Demasiadas vezes capitulamos e deixamos esses textos assim, tão inacabados quanto nós que os escrevemos.
“Quando me perguntam porque escrevo” foi uma leitura que me deixou com a sensação de que faltava algo. Estava à espera de uma imersão sobre processos de escrita ou de uma autenticidade que encontrei em “A Escrita como uma faca” da Annie Ernaux. O problema até pode ser esse, da expectativa, da comparação. Mas foi uma leitura que serviu como amuse-bouche: mesmo defraudando o que esperava daquelas páginas, conseguiu fomentar pensamentos e ruminações sobre a escrita, sobre leitura, sobre o complexo mundo da construção de histórias e das suas raízes misteriosas. Ajudou-me a perceber porque é que os parágrafos que escrevi no início que, à primeira vista, impunham uma continuação, um seguimento, acabaram assim, de forma despudorada. Escrevemos para lidarmos com as coisas que estamos a sentir e, se tivermos prática e consistência, conseguimos expurgar a nossa imaturidade emocional em amálgamas de frases que podem, ou não, conter um concentrado de algo.
Tirando o registo adoptado na escrita de um diário, escrevemos para ser lidos. “Mas talvez (…) dada a nossa natureza comunicativa, a nossa necessidade natural de companhia, não seja possível, ao escrevermos, não nos importarmos com quem irá valorizar o que escrevemos.” p.46. Mesmo que a nossa escrita seja hermética ou demasiado pessoal, quando a partilhamos, queremos que seja lida e apreendida. Procuramos validação através dela. Davis explica-nos que durante o processo de escrita não estamos propriamente preocupados com o que os outros pensam – ou nem sempre estamos. Isso é o propósito das editoras. Mas, depois de finalizarmos o que escrevemos, se consideramos digno de mostrar ao mundo, então, assumimos a nossa fragilidade e, corajosos, pomos a cabeça do cepo dos julgamentos que outros farão.
Abraço-vos,
João
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