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Crónicas . Da Balbúrdia Article

Expectativas

On Outubro 2, 2026porJoão Azevedo

Viver é gerir expectativas. O Budismo ensina-nos que uma das grandes raízes da aflição humana é não conseguir saborear o momento presente, o aqui e agora. Estamos constantemente focados no que ainda há-de vir e agarrados ao que já passou. Parece que evitamos, ativamente, lidar com o que temos à nossa frente a cada momento e preferimos o conforto do que já conhecemos e a esperança no que ainda nos espera. Porém, a vida acontece e escorre na nossa existência; só a podemos usufruir enquanto presenciamos cada um dos seus momentos. Mas se estamos com a cabeça no que já foi e no que ainda aí vem, desperdiçamos tempo para viver, de facto.

Há uns anos deparei-me com a história da enfermeira australiana Bonnie Ware. Ela acompanhou várias pessoas em fase terminal ao longo da sua carreira. Partilhou com essas pessoas as derradeiras semanas e começou a notar alguns padrões nas conversas que ia tendo. Em 2009 terá escrito um texto num blog – que não encontrei – que foi a génese do seu aclamado livro The Top Five Regrets of The Dying. Ela notou que havia uma transversalidade nos arrependimentos destas pessoas e listou os cinco mais citados. Quando os li, pela primeira vez, fiquei estarrecido com a profunda humanidade ali exposta. E percebi que alguns desses arrependimentos advêm, também, mas não só, dessa nossa dificuldade em viver o momento presente, de forma autêntica e genuína. Se vivermos agarrados a pedaços de passado e expectantes por futuros, temos pouca margem para sermos nós mesmos a cada momento do presente.

O confronto com a morte recalibra a forma como olhamos o mundo. Quanto mais próxima e impactante for essa morte, mais abrupta é a recalibração. Repensamos o que é, realmente, importante para nós. Reformulamos as nossas intenções, as nossas prioridades e somos lembrados da fragilidade que é a nossa existência. A morte recorda-nos o prazo de validade do invólucro com que nos passeamos por cá.

Photo by Daniel Dalea on Unsplash

Adiamos constantemente. Relegamos sonhos para segundo plano. Conversas difíceis, embora importantes, ficam agendadas num futuro incerto. Criamos e vivemos a ilusão de que o tempo é abundante e generoso. Acima de tudo, damos por garantido um amanhã que pode nunca chegar. A carapuça serve-me: demasiadas vezes adiei e procrastinei. É terrível a sensação de perceber que pedaços da nossa existência escorreram pelos nossos dedos, pequenos grãos de areia que não conseguimos agarrar porque teimamos em acreditar que seria depois que faríamos as coisas. Vivemos, de facto, soterrados pelas inseguranças e receios que o amanhã encerra. Porque é na ação que nos definimos, que nos permitimos aprender tanto quanto errar. A ideia é, etimologicamente, metafísica. Tem o seu espaço e lugar. Mas, como pude ler há uns anos numa pichagem, “demasiada consciência mata a ação”. É preciso o passo em frente e a materialização desse mundo das ideias para que a vida aconteça. Quantas vezes deixamos ideias esmorecer no esquecimento?

Volto a Bonnie Ware e permito-me um exercício mental. Se morresse amanhã, quais seriam os meus arrependimentos? O que gostaria de ter feito que ainda não fiz? De dizer o que ainda não disse? Estou a viver a minha vida no seu máximo potencial? Quantos grãos de areia estarei, neste preciso momento, a deixar escapar da minha mão enquanto tento agarrar a vida? O que é viver uma boa vida?

Recordo-me das palavras do capitão interpretado por Tom Hanks, dirigidas ao soldado Ryan: merece isto. Décadas mais tarde, no cemitério americano da Normandia, com milhares de campas de soldados, ele pergunta à esposa, lavado em lágrimas, se foi um bom homem. Pede-lhe que ela lhe diga que foi um bom homem. Não sei definir essa vida plena, nem o que define um bom homem. Sei, no entanto, que intenção quero ter presente ao longo da minha vida: aproveitar ao máximo o tempo que tenho com quem amo e tentar concretizar o maior número de sonhos sem prejudicar ninguém. Este ano mostrou-me, uma vez mais, que o tempo é finito. Que o tempo é um luxo e um privilégio e precisamos ser ciosos de com quem o partilhamos. Que ficamos inertes, tantas vezes, por questiúnculas que, no fundo, são irrelevantes. Escudamo-nos na complexidade das relações humanas para evitar ou adiar conversas, confrontos e, assim, perdemos a autenticidade de viver a vida como queremos.

Tenho tatuado memento mori, para estar sempre ciente de que vamos morrer. Não por um qualquer fatalismo pessimista, mas para ser recordado que há um prazo de validade e que é preciso aproveitar. Um bom exercício que o meu psicólogo fez comigo foi perguntar-me, quando morresse, o que gostaria que se escrevesse ou dissesse sobre mim. Com essa pergunta, e já lá vão cinco anos, percebi que pouco me importa o meu sucesso profissional, ou a minha carreira. Nessa reflexão, quis – e ainda quero – ser lembrado como um pai presente e consciente, um companheiro empático e apaixonado e um amigo com quem se pode contar. A vida é feita das pessoas e das experiências partilhadas que temos com elas. O resto é resto.

Abraço-vos,

João

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Tags: 2026, arrependimentos, Crónicas, expectativas, memento mori, morte

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