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Crónicas . Da Balbúrdia Article

filho, a democracia morreu.

On Outubro 30, 2026porJoão Azevedo

Olá,

Não é fácil navegar as águas da paternidade quando o contexto político é turbulento. O mais velho vai crescendo, ouvindo as conversas enquanto descortina significados e duplos sentidos. Mostra interesse pelas recentes manifestações e por poder expressar a sua opinião, claramente moldada pelo que os pais dizem e comentam. É aqui que compreendo como é que os ciclos de ignorância – e, consequentemente, intolerância – se perpetuam: os miúdos acabam por repetir os padrões que aprendem em casa, seja em termos comportamentais seja na visão do mundo. A sociedade está saturada das carências sociais sistémicas: não se cumprem os direitos constitucionais à habitação, saúde, educação e vida digna. Em muitos países da Europa, os jovens saem à rua para se fazer ouvir e são seguidos pelo resto da população. Os problemas são transversais às gerações e o custo de vida afeta todas as áreas da existência humana.

Como pai, tento que o meu desalento e descrença no sistema não salpique, demasiado, as conversas que tenho à frente dos meus filhos. Evito assumir posições mais extremadas que não concebem alternativas num sistema desenhado para perpetuar no poder os privilegiados através da repressão e violência de estado. Esforço-me por apontar o dedo aos problemas e desmistificar crenças populares que servem narrativas e interesses que não os nossos, do povo. A questão da polícia é um bom exemplo: no mesmo ano em que a investigação do Fumaça sobre o policiamento dos bairros guetizados é publicada, vemos sair da toca as pessoas, cegas pelo privilégio, escandalizadas pela ação policial nas manifestações das últimas semanas no Porto e em Lisboa. As polícias, para além da lavagem cerebral das suas formações, visam defender interesses opacos de quem governa e financia essa governação. É da natureza das forças da autoridade exercer repressão e violência para conter comportamentos tidos como desviantes. Infelizmente, com dois pesos e duas medidas. Os seus colegas podem acampar em frente da assembleia da república em protesto, mas a população indignada com a crise da habitação, não. Como se explica a atuação das polícias sem minar a crença de que há um corpo de forças que visa proteger o comum cidadão? Como responder à pergunta que germina no peito curioso de uma criança perante a evidência: quem nos protege da polícia?

O pensamento crítico que fomentamos lá por casa, levanta questões. Porque é que se reprime de forma violenta uma manifestação pacífica que pecou, aos olhos da lei, por um incumprimento de licença de campismo? Que interesses são servidos pela repressão? Porque é que o direito constitucional à manifestação e à integridade física se tornam secundários? Poder-se-á aplicar força de forma proporcional ou qualquer uso dela é sempre uma forma intolerável de violência? É este o problema da lei: quando é lida de forma absoluta e acrítica, abre brechas nas liberdades cívicas. As agressões físicas são criminalizadas, mas há um regime de excepção das polícias que passa incólume ao longo dos anos e dos incidentes, sem consequências. Como podemos ter dezenas de agentes numa carga policial sem a respectiva identificação? Como se permite um descalabro destes, onde os responsáveis – direção das polícias e as tutelas do governo – ao invés de pedidos de desculpa e abertura de inquéritos internos, defendem a atuação e respectiva violência. Criticam os protestos e, mais assustador, tentam demonizar o exercício da manifestação. Há um clima de impunidade que, a meu ver, anda de mãos dadas com a mesmíssima impunidade de que a corrupção política e administrativa gozam.

Photo by Marija Zaric on Unsplash

Como se educam crianças sobre civismo e cidadania quando o mesmo estado de direito democrático renunciou à civilidade e às liberdades constitucionalmente consagradas? Quando os valores e intenções da nossa família colidem com o aparelho repressivo do estado, de que ferramentas dispomos para ensinar as nossas crianças que os órgãos de gestão política, económica e social que nos deveriam apoiar, estão a tentar reprimir-nos?

O abandono do pensamento crítico, do exercício da cultura e da profundidade intelectual, trouxe-nos até este momento. Desde muito cedo que tentamos ensinar aos nossos filhos o poder que um livro tem. A capacidade transformadora da leitura de mundos e pensamentos diferentes dos nossos é inestimável. A estimulação da empatia e da preocupação para com os outros também é reforçada com cada página lida. Dilata-se a mente de modo a que, dentro dela, caibam mundos que nós não poderíamos conceber de outra forma. Outras realidades que trabalham a nossa capacidade de nos pôrmos na pele dos outros. Remamos contra a maré, bem sabemos. Num mundo em que a capacidade de concentração é brutalmente minada pelos picos de dopamina dos ecrãs que nos rodeiam e pelos algoritmos das plataformas – que insistem em condenar-nos a uma apatia controlada. Creio que assim o é por defeito. Torna as massas mais moldáveis, suprime-lhes a natureza contestatária. Afinal, se não se tiver noção do que está errado, criticar-se-á o que?

Recuo alguns meses, quando o meu filho mais novo teve que ir connosco a um serviço de urgências público. Lembro-me de haver por lá uma mãe com um filho pequeno, ambos racializados. O miúdo estava inquieto e pouco cooperante com a mãe. Nisto, ao passarem por um polícia de serviço na entrada das urgências, a mãe diz-lhe que se ele continua assim, a polícia leva-o. O agente, indignado, opinou que não se devia incutir este tipo de medo nas crianças, que era assim que elas acabam por criar uma relação pouco saudável com a polícia. Eu, testemunha silenciosa, ri-me por dentro. Primeiro, porque achei inapropriado o comentário do agente, a corrigir a mãe diante do filho, num tom paternalista. Será que o teria feito se a mãe fosse caucasiana? Depois, e ainda mais risível, porque pensei que, pela simples cor da sua pele, eventualmente, o miúdo será socializado a temer a autoridade e a sua força racista e opressora. Há uns dias, o meu filho mais velho quis ficar no carro enquanto eu tratava de um assunto numa loja. Tive-o sempre no meu campo de visão e reparei que, a dada altura, se encolheu no banco. Quando regressei, entrei e perguntei-lhe o que se tinha passado. E ele respondeu que viu um polícia e se escondeu, porque tinha receio que, por estar sozinho dentro do carro, o polícia o viesse repreender, ou a mim. Eu expliquei-lhe que ele não estava abandonado num veículo e que, caso o agente o tivesse abordado, era somente uma questão de explicar que o pai estava na loja e quase a regressar. A violência policial tem este lado insidioso: semeia o medo ao invés de cultivar um sentimento de respeito e segurança. O meu filho mais velho, branco e com uma vida privilegiada, teve receio da polícia. E isto, não tenho dúvidas, tem que ver com os constantes relatos de brutalidade policial que têm saído na comunicação social e nas conversas que ele vai captando. E ele, ainda tão novo, e precocemente, vai percebendo que as forças da polícia nem sempre nos protegem. Podem ser déspotas que agem cega e violentamente contra cidadãos pacíficos. Ou que, mesmo que provocados, agem de forma indiscriminada e desproporcional.

Sinto mesmo que a democracia morreu. Não é de agora. Vejo-a falecendo aos poucos com o passar dos anos: as liberdades vão sendo atropeladas e a vontade soberana do povo vai sendo substituída pelos interesses financeiros e margens de lucro. Neste processo, brutalizam-se os cidadãos, prolifera a intolerância e o ódio, destrói-se o tecido cultural. Hesito em dizer isto aos meus filhos. Não quero criar pessoas desesperançadas e desanimadas com o futuro; acredito, mesmo, que a crença na mudança é um motor importante na evolução da humanidade. Mas até eu, um otimista inveterado, tenho vindo a torna-me num cético e cínico de primeira classe no que à política diz respeito. Porém, sinto que não falta muito até eu dizer: “filho, a democracia morreu”. E isso, sim, é verdadeiramente assustador para mim, como pai.

Abraço-vos,

João

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Tags: 2026, brutalidade policial, Crónicas, democracia, polícia, violência

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